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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

UM SUPLÍCIO MODERNO

Por esses dias de degola, em que os protegidos dos prefeitos que saem ficam "mais perdidos que cachorro em dia de mudança", e os vencedores se degladiam por nomeaçoes, e alguns vao ter que sobrar, fiquei a pensar num conto bem antigo chamado "Um Suplício Moderno", de Urupês (1918), o primeiro livro de Monteiro Lobato. É um divisor de águas em nossa literatura nacional tanto do ponto de vista literário quanto histórico. Enquanto outros autores ainda copiavam os moldes e estilos europeus, Lobato lança um olhar sobre os problemas nacionais. O livro é engajado politicamente.


Capas de ediçoes de Urupês.

É ótimo, principalmente se tivermos a perspicácia de buscar no nosso meio, os mesmos elementos e personagens do Brasil do início do Séc. XX, com os coronéis, o voto de cabresto a opressão e a resistência a essas infâmias. Ë de Lobato a frase: "A humanidade é sempre a mesma cruel chacinadora de si própria"
Por aí você tire. Li e recomendo, mas como sei que é raro nas bibliotecas e você confia nas minhas pesquisas, taí um resumo.
O conto expõe as mazelas do emprego de estafeta, uma espécie de carteiro, como o tipo mais humilhado das cidades do interior. É a história de Biriba, um pobre coitado que acaba se tornando um escravo de todas as encomendas das pessoas de Itaoca.
Dessa forma, o que era um "empregao" acaba sendo a sua desgraça. Maltrapinho, miserável, submisso, um burro de cargas, pede demissao. Ë acusado de ingratidao, de loucura (por recusar um emprego daqueles) e nao é atendido. É quando resolve se vingar, traindo Fidêncio, seu superior.
Dias antes das eleições, recebe um pacote muito importante para o pleito e para a vitória do seu grupo político (imagino que um pacote de títulos). Deixa de entregar, sumindo com ele por dias, logo ele que nunca atrasara uma entrega do correio. Esse atraso proposital é o motivo da derrota e da queda do coronel, provocando a subida de um novo grupo político.
O líder do novo grupo, Evandro, não poupa quase ninguém do antigo governo, apenas o pobre Biriba, recebido de forma bastante atenciosa e pelos relevantes serviços prestados a eleição continua no “importante e cobiçado cargo de estafeta”. Provavelmente desconfiando que tudo iria continuar como antes, com a nova ditadura apenas substituindo a antiga, mudando apenas os personagens, some de Itaoca.
Um pequeno trecho:

“Ao tempo da queda do outro a subida de sua gente, andava Biriba reduzido à conspícua posição de “fósforo” eleitoral. No pleito trabalhara como nenhum. Deram-lhe as piores missões - acuar eleitores tabaréus embibocados nos socavões das serras, negociar-lhes a consciência, debater preço de votos, barganhá-los com éguas lazarentas a provar aos desconfiados, com argumentos de cochicho ao ouvido, que o governo estava com eles. Após a vitória, sentiu pela primeira vez um gozo integral de coração, cabeça a estômago.
Vencer! Oh, néctar! Oh, ambrósia incomparável! O nosso homem regalou as vísceras com o petisco dos deuses. Até que enfim os negrores da vida de misérias lhe alvorejavam em aurora. Comer à farta, serrar de cima... Delícias do triunfo! Que lhe daria o chefe?

No antegozo da pepineira iminente, viveu a rebolar-se em cama de rosas até que rebentou sua nomeação para o cargo de estafeta.”

Como é que pode, há quase 100 anos já era assim...

Um comentário:

francisco das chagas de almeida disse...

Ora veja só!Agora tranfira-se a uma cidade com menos de dez mil hab.onde o mpoder municipal depende único e exclusivamente do federal, e que este ñ tenha pactos com o inermediário quantas situaçõe dessas não teremos?Imajine esse nosso brasil onde se criam municipios para satisfazer vontades de grupos,e se ñ criam ficamos refens de outros;É sempre assim, como dis Cristovão buarque,enquanto ñ investir massiço na educação seremos refens dessas situaçõe por muito tempo ainda.