Este é um blog de opinião. As postagens escritas ou selecionadas refletem exclusivamente a minha opinião, não sofrendo influência ou pressão de pessoas ou empresas onde trabalho ou venha a trabalhar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Verbo se fez carne

Para o Natal, um belo texto publicado no Alma Acreana, blog do escritor tarauacaense Isaac Melo.

* Georges Bernanos (1888-1948)

O Verbo se fez carne, e os jornalistas daqueles tempos não souberam de nada!


A Virgem não teve nem triunfo nem milagres. Seu filho não permitiu que a glória humana a tocasse, ainda que com a mais tênue extremidade de sua grande asa selvagem.

Ninguém viveu, sofreu e morreu tão simplesmente e numa ignorância tão profunda da própria dignidade, de uma dignidade que no entanto a coloca acima dos anjos.

Pois afinal ela havia nascido sem pecado, que espantosa solidão! Uma fonte tão pura, tão límpida, tão pura e tão límpida, que ela nem podia ver nela a própria imagem, feita apenas para a alegria do Pai – ah, solidão sagrada!

A Virgem era a inocência. Você tem consciência daquilo que somos para ela, nós, a raça humana?

Ah, naturalmente, ela detesta o pecado, mas afinal não tem qualquer experiência dele, aquela experiência que não faltou aos maiores santos, até mesmo ao santo de Assis, por mais seráfico que seja.

O olhar da Virgem é o único olhar verdadeiramente infantil, o único olhar de criança que jamais foi erguido sobre nossa vergonha e nossa infelicidade.

* BERNANOS, Georges. Diário de um pároco de aldeia. São Paulo: Paulus, 1999. p. 209-211 Make Money at : http://bit.ly/copy_win 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Acre - Depósito de desterrados.

Com certo atraso, compartilho uma tese do Professor do Departamento de História da UFAC Francisco Bento.

A tese intitulada  "Acre, a pátria dos proscritos: prisões e desterros para as regiões do Acre em 1904 e 1910" (UFPR, 2010), desnuda uma parte da História do Brasil e mais especificamente do Acre nos primeiros anos após o arrebatamento de considerável território das mãos de peruanos e bolivianos.

O Acre era um lugar de degredo, para onde eram enviados os "piores e mais terríveis malfeitores" da República.

Limparam os porões dos presídios da Capital e enviaram ao Acre cerca de duas mil pessoas.

Só por ter roubado um prato de comida em Cruzeiro do Sul, no Acre, Saul Ovídio teve que responder a um inquérito policial em 1905. Já Lycurgo Álvaro de Carvalho foi preso na cidade de Xapuri, em março de 1910, acusado de ter sido coautor de um assassinato. Delphina Rodrigues da Silva, em 1913, foi arrolada em um processo criminal como ré e pivô de uma briga de bar na vila de Santo Antônio do Madeira, de onde o soldado José Rodrigues saiu ferido a golpes de navalha. Francisco Pereira foi preso após ter sido baleado pela polícia por ter “causado confusão” em uma festa alusiva ao Dia do Trabalho, em 1916, na vila de Presidente Marques, próxima à de Santo Antônio. O comandante da polícia, réu no processo, se defendeu acusando Francisco de criminoso contumaz e irrecuperável.

Todas essas pessoas faziam parte de um grupo que foi expurgado do Rio de Janeiro para as chamadas “regiões do Acre” em 1904 e 1910. Se Saul e Lycurgo faziam parte da primeira leva, Delphina e Francisco foram expulsos na segunda. Cerca de dois mil cidadãos foram punidos pelo governo federal da mesma maneira, por conta do seu envolvimento nas Revoltas da Vacina (1904) e dos Marinheiros (1910), e após a vigência dos estados de sítio que foram decretados depois dessas rebeliões. Todos foram desterrados como criminosos políticos, e não como condenados pela Justiça.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Ex- aluno do Ifac é professor de curso do Pronatec ofertado pelo Instituto

Ronei Francisco de Andrade Silva, 31 anos, era vigilante antes de ingressar no curso subsequente (pós conclusão do Ensino Médio) de Técnico em Agropecuária, oferecido pelo Instituto Federal do Acre no Câmpus Cruzeiro do Sul.



Em 2010, a história de vida deste jovem começou a mudar. O irmão decidiu inscrevê-lo no curso e após ser sorteado, Ronei estudava durante o dia e trabalhava à noite. Rotina ainda mais complicada por morar na zona rural. As dificuldades o obrigaram a escolher entre o trabalho e o curso
.
“Lógico que eu escolhi o curso. Sabia que era a minha chance de melhorar de vida. Além disso, as aula me passavam conhecimentos que podia e consegui aplicar na minha colônia. Comecei com uma pequena produção de verduras, depois ampliei a criação de galinha, pato e porco que já tinha. Foi assim que consegui sustentar minha família até terminar o curso”, relatou Ronei.

O formação técnica em agropecuária abriu mais portas para Ronei. Logo após a conclusão conseguiu vaga em uma cooperativa, mas não permaneceu por muito tempo. Em agosto deste ano, o ex-estudante do Ifac se inscreveu para ser professor do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, executado pelo Instituto.

“A vaga era para Porto Walter, a Aline que foi minha professora e é coordenadora do Pronatec na região, me falou das dificuldades que enfrentaria por conta da distância, da necessidade de dormir lá durante o final de semana. Mas eu não pensei duas vezes para assinar o contrato e começar as atividades”, disse o ex-aluno.

Desde então, Ronei sai de Cruzeiro do Sul todas às sextas-feiras pela manhã e viaja quatro horas de barco sobre o rio Juruá até a pequena cidade de Porto Walter para ministrar a disciplina de Produção Animal, do curso de auxiliar técnico em agropecuária, à 30 alunos que se reúnem no quartel da PM do município.

“Vejo o esforço deles e me lembro de quando eu estava fazendo o curso no Ifac. Da luta, das dificuldades porque morava na zona rural... de tudo! Por isso, sinto uma enorme satisfação em poder repassar os conhecimentos que adquiri através da mesma instituição que aprendi tudo o que sei hoje”, declarou.

Os alunos do Ronei enfrentam, praticamente, uma maratona até chegar ao local das aulas. São longas caminhas na estrada de terra que em dias de chuva dificulta ainda mais o acesso dos estudantes. “Quando ele conta que já passou por situações parecidas para poder conseguir concluir o curso e hoje estar aqui nos ensinando me sinto motivado. É mais uma razão para não faltar as aulas”, disse o estudante Francisco Neto.

A ex-professora do Ronei e também coordenadora adjunta do Pronatec no Vale do Juruá, Aline Araújo, falou do orgulho de ver seu ex-aluno se esforçando tanto para atender a comunidade de Porto Walter. “Me sinto honrada de ver meu ex-aluno, do curso técnico em agropecuária, agora como meu colega de trabalho no PRONATEC. O esforço dele e a disposição dos alunos tem trazido ótimos resultados. Um deles é a inexistência de evasão na turma. Quem sabe, em um futuro próximo, ele também passe por emoção parecida com a que vivo hoje. Ver esses alunos da zona rural trabalhando, aplicando os conhecimentos que ele passou”.

Fonte: Pronatec/Cruzeiro do Sul

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Chaves era sofisticado e simples

Moisés Diniz

‘A simplicidade é o último grau de sofisticação’, dizia Leonardo da Vinci. Talvez essa seja a mais luminosa qualidade de Chaves, que esteja criando tanta consternação na sociedade latino-americana e ofuscando quem aprendeu a olhar o mundo a partir da sua própria sombra, achando que, por representar a sua silhueta, seja mais importante do que a luz.
O prestigiado jornal A Folha de São Paulo abriu a sua primeira página para uma estudiosa da alma humana, talvez, a dela e de seus amigos da velha academia, aonde as letras tortas e rústicas do povo não cabem no seu nobre alfabeto. O nome da moça é Sylvia Colombo e o artigo foi intitulado de “Menos Chaves, mais Cantinflas”.
Sylvia Colombo tenta construir um discurso à esquerda do sentimento popular do brasileiro que, segundo ela, é atrasado e subserviente a uma visão estereotipada da pobreza latino-americana, retratada no personagem Chaves, qualificando-o como um produto pobre, folclórico e tosco da poderosa Televisa mexicana. Em respeito ao tempo dos leitores, publico apenas um de seus parágrafos, mas, quem quiser lê-lo todo, basta acessar:http://sylviacolombo.blogfolha.uol.com.br/2014/11/29/menos-chaves-mais-cantinflas/
“A equação da série Chaves é essa: os roteiros eram estúpidos, os textos, fraquíssimos, as piadas, preconceituosas e machistas _basta ver como são retratadas as mulheres no programa. Temos a menina histérica de vestido curto, a mulher mandona cheia de bobs no cabelo, ou uma mais velha, que sem rodeios é chamada de “bruxa”. Sem contar o modelo masculino (seu Madruga), um sujeito folgadão, desbocado e autoritário, a homofobia implícita de seu discurso e suas atitudes.”

Aqui reside o problema de Sylvia Colombo e de grande parte dos ‘doutores’ da alma humana, que, como o Professor Girafales, sentem enorme dificuldade em entender que os pobres, sejam latino-americanos ou africanos, podem se sentir representados por personagens que – embora simples, ‘caricatos’ até, folclóricos, rústicos, analfabetos – podem estar a alimentar esperanças sutis e utopias de todo um povo, mesmo que seus roteiros não tenham sido escritos por celebridades como Honoré de Balzac, Dostoiévski ou Charles Chaplin.
Chaves penetrou na alma latino-americana, como água numa areia pisoteada por quinhentos anos de dominação colonial e capitalista, porque o coração dos pobres nunca foi pedra. Quando precisou endurecer, em suas revoltas populares, foi carbono. Sua mensagem sempre foi simples, mas, era como se existissem conceitos subliminares, como se a filosofia estivesse a alimentar aquela linguagem tonta, infantil e ingênua de Chaves e de seus amigos, como Kiko, Seu Madruga e Chiquinha.
Chaves dormia num barril, à semelhança do filósofo Diógenes de Sínope, representante qualificado do cinismo, que também dormia num barril e andava nu e dizia que “não tinha propriedade alguma para não ser propriedade de nada”. O cinismo, como corrente filosófica, oferecia às pessoas a possibilidade de felicidade e liberdade do sofrimento em uma época de incertezas. Os cínicos não tinham nenhuma propriedade e rejeitavam todos os valores convencionais de dinheiro, fama, poder ou reputação e sua sabedoria maior consistia na ação, não apenas no pensar.
Se pedíssemos a um grupo de estudantes de filosofia para analisar o personagem criado e interpretado por Roberto Bolaños, com certeza, eles lembrariam do que estudaram sobre o cinismo de Antístenes e Diógenes e escreveriam que as máximas do cinismo filosófico aparecem nas frases toscas e tontas de Chaves e de seus amigos e no comportamento de cada cena. E diriam, também, que se assemelham, fortemente, à vida dos pobres nas periferias das grandes cidades latino-americanas.
As cenas repetitivas, que a gente já sabia que ocorreriam nos próximos minutos, sejam na figura de Chaves, de Kiko ou de Seu Madruga, lembram a tragédia de Sísifo, da mitologia grega. O mortal Sísifo que, por ter prendido a morte, recebeu o castigo eterno dos deuses: foi obrigado a rolar uma pedra morro acima, que, quando chegava no topo, despencava novamente. Albert Camus, em seu ‘O Mito de Sísifo’, diz que Sísifo, no lugar do suicídio, respondeu com a revolta aos deuses.
Há algo mais semelhante ao ‘Trabalho de Sísifo’ do que a vida de um pobre latino-americano? No ensaio que escrevi em homenagem a Chico Mendes, há um trecho que retrata com fidelidade o ‘Trabalho de Sísifo’ dos pobres da terra, aqui representado por um filho da floresta amazônica: “acordar com a madrugada, pescar uns peixes miúdos, comê-los com sal e banha na panela, ao alvorecer, agarrar-se aos instrumentos de trabalho, a enxada, a faca de seringa, o terçado, enfezar-se com mutucas, o pium, a ‘ruçara’, cipós-de-fogo, todo tipo de inseto, até inseto que mata”… Segue o texto completo em: http://www.altinomachado.com.br/2008/04/o-chico-mendes-que-eu-vi.html.
As cenas que ocorrem repetidamente na vila de Chaves estão presas a esse conceito, explicado pelos doutores da filosofia e vividos, cotidiana e desgraçadamente, pelos pobres latino-americanos. É como se Nietzsche e Allan Kardec tivessem ajudado Roberto Bolaños a escrever cada cena que se repetiu nesses 30 anos de existência. Como se quisesse dizer: teu filho viverá a mesma indecência da tua miséria humana, teus netos e teus bisnetos, num entrelaçar de vidas passadas e presentes, vivendo agora o que viveste em vidas anteriores.
Por isso, Chaves era sofisticado e simples.

Moisés Diniz é membro da Academia Acreana de Letras e autor do livro O Santo de Deus

domingo, 9 de novembro de 2014

"SERÁ QUE ESTOU ME TORNANDO CONSERVADOR?"

POR MOISÉS DINIZ - Nas últimas semanas tenho lido muita coisa pela imprensa afora, de esquerda, de direita, de extrema-esquerda, ultra reacionária, de todo tipo. Além das asneiras publicadas pela direita, falando, inclusive, de golpe militar, algo também estranho vem sendo publicado pela esquerda: o controle dos meios de comunicação, mesmo que seja a regulação econômica, como define a presidente Dilma.


Desde que entrei no Partido Comunista, há trinta anos, que sempre discordei da forma em que os partidos comunistas e de esquerda, no poder, tratavam a mídia.

A primeira desconfiança se dava na desproporção do poder mal utilizado. Que socialismo ou governo de esquerda eram aqueles que precisavam cercear a imprensa, controlar sindicatos, banir partidos, etc, quando detinham o poder político, o poder econômico, as terras e até as forças armadas? Algo de errado havia naquelas repúblicas socialistas. O déficit não foi outro: caíram quase todas.

Sempre desconfiei de que, quando a esquerda não faz o dever de casa, acaba descambando para o autoritarismo, quando descobre que a direita e a mídia estão dentro do mesmo trem. E aí não sobra outro caminho: defendem o controle da mídia.

Por que os intelectuais da esquerda e a sua militância não se perguntam o que a esquerda, no poder, fez para que a sociedade civil organizada pudesse ter também os seus meios de comunicação de massa?

Por que um governo de esquerda escancarou concessões aos clãs de Sarney, Collor, Barbalho et caterva e não abriu milhares de rádios e tvs comunitárias, estudantis, sindicais, indígenas, rurais, de grupos de cultura, de religiões populares, além dos poderosos canais de tvs dos bispos?

Acho que eu não estou me tornando conservador, apenas mantendo a minha posição de que imprensa a gente não controla, a gente impõe a disputa, abre concorrência. E deixa o povo assistir e julgar.

De minha parte, independente da opinião dos partidos de esquerda ou de direita, vou continuar me posicionando contra qualquer controle dos meios de comunicação, porque a mesma direita que, agora, combate o controle da mídia, é a mesma que, quando no poder, age pelo cerceamento da imprensa.

São duas escolas velhas que precisam se entender com o presente, para não virarem fumaça no futuro. São duas irmãs gêmeas: se harmonizam no cerceamento à imprensa e divergem noutras questões. Por exemplo, a esquerda, no poder, controla e amordaça os movimentos sociais e a direita os prende e, as vezes, os mata.

Vamos continuar apostando que a melhor forma de tratar o monopólio da mídia é garantindo equipamento de comunicação social nas mãos da sociedade civil organizada do outro lado da tela.

*Moisés Diniz é membro da Academia Acreana de Letras, autor do livro O Santo de Deus

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Hoje na História. Parabéns, Mané Garrincha!

"Ele foi um rei, e brincou com a sorte". Assim Benito di Paula definiu Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha. 

Estivesse materialmente vivo, Mané estaria completando hoje 81 anos. Nasceu em Pau Grande/RJ em 28.10.1933.

Garrincha craque, jogando em alto nível, defendendo o Brasil em Copas do Mundo não é do meu tempo, mas a TV, o cinema e os poetas trataram de fazê-lo imortal. 

Para relembrar Mané, Moacir Franco e Benito di Paula.


domingo, 26 de outubro de 2014

"Coração Valente" enfrenta e derrota golpistas outra vez.

Em eleição livre e democrática, Dilma Rousseff enfrenta e volta a vencer golpistas

Contundente, presidenta agregou movimentos e a esquerda, grupos comos quais terá de manter diálogo em seu segundo mandato. Aécio, Marina, mercado financeiro e Globo têm razão para estar boquiaberto.

São Paulo – Foi uma vitória maiúscula. A reeleição de Dilma Vana Rousseff (PT) escreve muitos capítulos inéditos e carrega uma força simbólica que, se não é maior que a das demais disputas vencidas pelo PT no plano federal, é única. A mulher nascida em Belo Horizonte em 1947 mais uma vez deixa de joelhos, boquiaberta, a repressão que lhe tentou cassar os direitos políticos.
Se havia alguma dúvida de que esta era uma eleição do candidato do sistema patriarcal brasileiro contra todo o resto, a edição do Jornal Nacional na véspera eliminou qualquer margem de ingenuidade. Jornalismo mandou lembrança, William Bonner. Dividida entre interesses públicos e privados, a emissora dos Marinho atendeu novamente a seu chamado de classe ao exibir reportagem sobre supostas denúncias de que Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva teriam ciência de um esquema de pagamento de propinas utilizando verbas da Petrobras.
Tentou um desfecho sujo para uma temporada eleitoral eleição suja. Sob o pretexto de um protesto de jovens que empilharam lixo em um prédio da editora, que chamou de “ataque” à sede do Grupo Abril, o Jornal Nacional dedicou seis minutos a narrar a “denúncia” da revista Veja, uma publicação que nunca esteve tão à altura da alcunha de “mídia golpista”. Lá pelas tantas aparecia a figura de Aécio Neves, candidato do PSDB dado a vitórias no tapetão. Fosse tão ético quanto jura ser, o tucano teria se recusado a ecoar uma reportagem feita com base num depoimento inventado – seu suposto autor, o doleiro Alberto Youssef, desmentiu que tenha feito as declarações difundidas pela publicação semanal.
Mas Aécio, a exemplo do Jornal Nacional, atendeu a seu DNA de classe, uma elite financeira que há muito chegou à conclusão de que vale qualquer coisa para tirar o PT do poder. Têm razão as pessoas que comparam essa disputa com a de 1989. Não pelo acirramento, nem pelo embate ideológico, mas pela tentativa da Globo de se fazer protagonista de um pleito do qual não é partícipe – ou, legalmente, não o é.
A divulgação de reportagem contra Dilma na véspera da eleição não se deu ao acaso: a “denúncia” já era de conhecimento público na véspera, quando os Marinho não a quiseram levar ao ar. Não quiseram por um motivo óbvio: a presidenta teria tempo de apresentar sua versão no debate daquela noite ou de buscar direito de resposta no Tribunal Superior Eleitoral, como o obtido contra a Veja.
A última edição do Jornal Nacional antes das eleições não pode ser enxergada fora de contexto. São 12 anos de bombardeio, quatro em particular, 2014 em particularíssimo. A vitória de Dilma não é uma derrota apenas de Aécio e do PSDB. É da mídia tradicional, que investiu até o último grama de força para bater no PT, chegando ao ponto da desestabilização da democracia. É do mercado financeiro, que nos últimos três meses praticou um rally eleitoral e encontrou no tucano um porta-voz de sua vontade de ter um governo que deixe a especulação comer solta. É de Marina Silva e do PSB, que, sob o pretexto da não neutralidade maltrataram suas histórias e alinharam-se à força neoliberal que tanto combateram. É do ódio visceral a um partido, de um sentimento mais vomitado e gritado do que explicado.
É de todo um sistema repressor da democracia. O segundo turno clareou o que estava em jogo. De um lado alinharam-se movimentos sociais comprometidos com avanços, centrais sindicais em busca de melhorias para a vida do trabalhador, partidos que carregam no histórico a tentativa de transformação do país. De outro estiveram meios de comunicação a serviço da especulação financeira, representantes de segmentos fundamentalistas apavorados com qualquer avanço social, partidos que carregam no histórico a marca do elitismo e da divisão de classes.
A vitória de Dilma, por isso, jamais poderá ser entendida como um sucesso alcançado sozinho. É o êxito que coroa uma união de forças progressistas. É o êxito das ideias democráticas sobre o ideário que considera que Brasil bom é o que se divide entre pobres e ricos e que vê como intento autoritário a proposta de ampliar a participação popular, já que o exercício do sistema político deve se dar entre quatro paredes.
É esta corrente que a presidenta terá de encabeçar no exercício do mandato. Se a primeira vitória foi celebrada por trazer no bojo a maior base aliada da história no Congresso, a segunda deve ser motivo de comemoração para a esquerda por uma rara união. União que só poderá ser mantida mediante avanços institucionais em diversas áreas.
A reeleição da presidenta carrega o poder simbólico da foto em que aparece, menina, com gesto imponente perante militares que representavam a tortura e a cassação de seus ideais. Deixou a repressão de joelhos ao sobreviver às sevícias, retomar sua militância política, se tornar secretária no Rio Grande do Sul, ministra de Lula, presidenta do Brasil e uma das mulheres mais influentes do mundo.
Ao longo dos quatro anos, e particularmente desde julho, foi submetida a uma surra inesquecível. As cicatrizes, carregará para sempre. Tentarão deixar outras marcas, buscando agora um terceiro turno que já haviam tentado em 2010, ao tratar por ilegítima uma vitória obtida com a superação de dificuldades, mentiras, acusações. Dilma deixou a repressão de joelhos, mais uma vez. Não será perdoada, e terá de travar uma batalha definitiva contra os fantasmas do passado.

Do site Rede Brasil Atual

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Código de Posturas do Departamento do Juruá

O ano era 1905 e Thaumaturgo de Azevedo, prefeito do Departamento do Juruá, resolveu ajustar os hábitos e costumes da recém-criada Cidade de Cruzeiro do Sul.

Através do Decreto n. 24 de 28 de dezembro de 1095, criou o "Código de Posturas".

O decreto só foi publicado em maio de 1906 no jornal "O Cruzeiro do Sul" (criado e mantido pelo Departamento).

Duas curiosidades: 
"Art. 19 - Será multado em (...) quem tomar banho no porto da cidade em completa nudez, andar indecorosamente trajado ou escrever palavras immoraes nas paredes. 

Art. 20 - Só poderá andar armado quem tiver licença da autoridade policial. Multa de (...) para o contraventor."

É, precisava organizar mesmo. Agora fico pensando, o que seria para os padrões da época, alguém "indecorosamente trajado"?

Abaixo, recorte do jornal com o Código de Posturas da Capital do ?Departamento do Juruá: 
 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Frase do Dia.

“Hoje é segunda-feira, dia 13 de outubro. Considerando a margem de erro, feliz Natal!”
O povo brasileiro só conta com sua própria lucidez
Autor: Fernando Brito
Nenhum de nós, neste momento, tem o direito de ser ingênuo com o que está acontecendo.
Não há um processo eleitoral democrático, normal, onde as forças políticas se confrontam e disputam a preferência do eleitor.
Tanto que se empurra ao favoritismo um homem que se formou no conforto do nepotismo e cuja  virtude política é sua própria nulidade pessoal.
Existe, sim, uma tentativa em marcha – e avançada – de conduzir o povo brasileiro não à eleição de um candidato, mas ao linchamento de um governo.
Uma espécie de 1954 com urnas eletrônicas.
O povo brasileiro está sitiado.
Ocultaram-lhe que seria Aécio – e não Marina – a enfrentar Dilma no segundo turno e, assim, deixaram sua nulidade no “freezer”, até que fosse a hora de plantá-lo, ao velho como novidade, para a cartada final.
E, para ela, não foi preciso mais que articular o comportamento de um canalha de terceiro escalão ao qual se prometem prêmios por “delações”, com um juiz que o faz prestar um depoimento genérico, sobre fatos  que, depois de meses de investigação, ele já teria de ter revelado, para que seja divulgado em redes de televisão, enquanto se nega o acesso a quem é acusado às informações sobre o que é dito, especificamente.
Parte do Judiciário se junta ao que é generalizado.
A imprensa, as instituições, a economia, seus políticos  estão de goela aberta, prontos a devorar seu futuro.
Estão prontos a tudo que lhes signifique uma chance de tirar este país do povo brasileiro.
Os que o defendem estão mudos ou anulados, perdidos em seus próprios equívocos, acomodações e conveniências.
Respeitaram, como em nenhuma outra época da história brasileira, o livre funcionamento das instituições e não tocaram nos privilégios de nossa elite, exceto o de ser a única dona do Brasil.
Todas estas forças, agora,  se unem contra um processo político que o afirmava.
Um processo do qual, nem mesmo ele, o povo, tem uma consciência que vá além de sua pele, de seu instinto.
Porque suas vanguardas política abriram mão de sê-lo, na ilusão de que podiam ser “de todos”
Como naquele momento terrível de nossa história, o “mar de lama” que sem pintava não era real e muito menos Getúlio Vargas estava nele mergulhado.
Mas a histeria moralista da UDN de nossos tempos conseguiu arrastar parte da classe média.
Marina Silva é só a expressão desta hipocrisia, de um movimento que há 60 anos agita corrupção e anticomunismo como se fossem honrados e defensores das liberdades, mas compactua com o saque colonial de nosso país e com todo o autoritarismo que  tivemos e temos.
Temos uma elite perversa, que compreende que a fome só faz escravos e que vê escravos da comida os que deixam de passar fome.
Que odeiem um médico cubano porque aceita trabalhar ganhando R$ 4 mil quando R$ 10 mil não bastam a um médico recém-formado no Brasil para trabalhar de oito às cinco na periferia.
Tornamo-nos o país do ódio.
As manchetes de jornal são o que teria dito um crápula, um ladrão, em troca de um perdão e sabe-se mais o que lhe tenham prometido, para declarações cronometradas a coincidirem com o momento das eleições.
No entanto – que maravilha! – o povo brasileiro resiste.
Só tem seu instinto a defendê-lo.
Mas o instinto, tão desprezado, é muito poderoso, se ele encontrar referências.
Se tivermos, porém, a coragem de lhes dar a verdade.
Temos 15 dias e um desafio imenso pela frente.
Nestas duas semanas, temos de usar os programas de TV e os debates para desmontar, corajosamente, as montagens marteladas a cada dia pela mídia.
Já não é hora de posturas defensivas ou de jogos estratégicos.
Campanhas são longas, como a que fizeram de junho de 2013 para cá, quando fizeram um país que acreditava estar indo no caminho certo parecer um lugar onde parecia que tudo estava errado.
E como, assim, conseguiram os incautos esquecer de anos, décadas em que a classe dominante fez, de fato, tudo dar errado para o nosso país e nosso povo.
Mas o que temos agora não é uma campanha, mas uma batalha.
Nelas, é preciso coragem, ousadia e líderes.
Se deixarmos que se percam as referências, a força de nosso povo se dispersa e pode ser vencida.

Mas se elas surgem, deixando de lado os cálculos políticos convencionais, o povo brasileiro pode  sair do isolamento em que o querem colocar.

sábado, 4 de outubro de 2014

Há quase 25 anos... Relembre alguns jingles que marcaram as eleições de 1989.

Era a primeira eleição para muita gente. A minha primeira eleição.
Depois, vieram outras, até mais felizes, mas aquela...

Desde 1960 que o povo não tinha a oportunidade de escolher um Presidente da República.

Foi, no meu entendimento, e que eu vivi, a eleição mais alegre e democrática que o Brasil já teve. 

Ali, os principais partidos da República (22 partidos apresentaram seus candidatos, sem essa invenção de coligação) estavam bem representados, com seus melhores quadros.

Inesquecível pelas musiquinhas (os jingles de campanha), que nos levam a reviver aqueles anos de esperança. Os principais:

A do Afi Domingos PL(3:20) é sem dúvida a mais linda: Vamos, juntos chegaremos. Vamos levantar esse gigante. Juntos chegaremos lá! A sombra das palmeiras, onde canta o sabiá. Juntos chegaremos lá! Fé no Brasil!

A do Collor PRN(a primeira) nem precisava ser muito bonita.

A do Lula PT, cheia de artistas consagrados como Chico Buarque, Lula, la! Brilha uma estrela, Lula, lá! Cresce a esperança, no Brasil criança, Lula lá! 

Bote fé no Velhinho, o velhinho é demais, lembra? Era o Dr. Ulisses do PMDB.

Mario Covas do PSDB. Nossa força é o coração...

O horizonte é uma luz brilhando...Aureliano Chaves

Lá, lá, lá, Brizola! , Afonso Camargo, é PTB e até o Silvio Santos. É o 26, com o Silvio Santos chegou a nossa vez. É o 26...


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Perpétua e a primavera das flores

Hoje, pela beleza do poema e pelas verdades contidas em cada palavra, compartilho a COLUNA DO BRAÑA. 

Foto: J. Diaz
Eu não tenho nenhuma dúvida em afirmar que você é a política mais extraordinária doAcre dos últimos tempos.
E falo isso porque conheço os políticos daqui e os melhores estão ao seu lado nesta jornada decisiva.
Ninguém nesta campanha tem sido mais sincera, mais humana, mais próxima das pessoas que você, Perpétua.
Se contar ninguém acredita, mas a rotina diária da sua campanha é algo impensável para o político comum.
Os abraços, os beijos, os afagos que você dá e recebe são as mais belas imagens dos últimos meses no Acre.
Falo com a intimidade de quem a conhece desde os tempos de um tal sindicalismo combativo e que um dia fez história por aqui.
E constato, para minha alegria, que você é hoje o principal fruto da luta que vivemos lá atrás em defesa dos trabalhadores.
Sei que alguns não gostam de você.
Por ser mulher, política, guerreira da vida e diferente.
Parte da sociedade não gosta de mulheres assim.
Prefere Amélias, de Ataulfo Alves e Mário Lago, que você nunca foi, não é, e nunca será.
Por outro lado, outras tantas mulheres e até homens se veem em você.
Pelo seu exemplo e dedicação ao Estado do Acre.
A campanha que enfrentas hoje é a mais árdua batalha política da sua vida.
Num cenário que todos sabem não está sendo fácil pelas circunstâncias e desequilíbrios conhecidos.
Todavia, nos últimos dias a primavera voltou a brilhar no ambiente acreano.
As flores – a flor que carregas entre as suas madeixas – estão mais coloridas.
Muitos viraram beija-flor e estão alimentando com néctar esse sonho do Senado.
Milhares estão ajudando.
Voando de Flor em Flor.
Porque o tempo é agora.
‘Vamos precisar de todo mundo’ (Beto Guedes)
Um mais um é sempre mais que dois’ (Beto Guedes)
Pra vencer o gigante do metal.
Pra construir um Acre bem melhor!
Canta!
Leve sua vida com alegria.
Porque contagia todo mundo.
‘E quem não é tolo pode ver’ (Beto Guedes)
Essa é sua senha da vitória.
Escrevi, dias atrás, numa coluna, que você, Perpétua, é o sal desta eleição.
E que no Acre, hoje, o debate é se Perpétua vence ou se Perpétua não vence.
Todos preocupados com você.
Porque entendem que o Acre precisa muito de Perpétua no Senado da República.
Eu só tenho o meu voto pra te oferecer.
E outros que já pedi e estou pedindo.
Porque…, sabe Perpétua, a primavera das flores é a mais linda das estações.
Para merecer quem vem depois…

Os estúpidos...

"Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no fato de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões".

Bertrand Russell

sábado, 27 de setembro de 2014

Estátuas, lixo e dengue. Parabéns, Cruzeiro do Sul!

A imagem acima é da única caixa de lixo da minha rua, que ainda conserva a cor do município, aliás, a tinta deles parece ser mais resistente que o ferro.
No aniversário de 110 anos de fundação de Cruzeiro do Sul, a cidade ganhou uma estátua na praça, e eu, contribuinte, não ganhei uma caixa de lixo no meu bairro.

Não adianta querer saber quanto gastaram na confecção da estátua de um ex-governador, fatidicamente plantado no lugar do Obelisco (que vou escacaviar para saber onde jogaram).

Aliás, registre-se que a obra é de péssimo gosto, entre o Dadaímo e o amadorismo. 

Em nada, exceto pela cor (dourada, como se fora banhada à ouro) lembra o homenageado. 

Fosse da família, mandava tirar. Qualquer escola de samba, ou os bonequeiros de Olinda fariam melhor.

Tudo bem, pouco importa. Por aqui, se é legal, pode até ser imoral, mas os pobres, os miseráveis, hão de adorar. 

Aposto qualquer coisa, com quem estiver disposto a perder, que veremos velas acesas aos pés da escultura, de promessas ao santo.

Para um coitado da periferia de tudo, de senso crítico, desses que na ausência de remédios toma um chá com um pedaço da foto de um candidato para curar dor de cabeça, ficou lindo...hão de chorar emocionados, e tocarão na estátua e a beijarão...

Verei ali um lugar de romaria. Um lugar sagrado, daqueles que é impossível aproximar-se sem que nos cause alguma emoção estranha, desconcertante.

A emoção que senti já é uma velha conhecida, a revolta com a bestialidade humana. 

Revolta por não ter uma caixa de lixo no meu bairro. 

Enquanto os párias dançam ululantes em torno de uma estátua, a cidade se apavora com os recordes de casos de dengue. Mais de 6.000 casos já foram contabilizados.

Precisamos realmente de heróis empalados em praça pública? O escritor Eduardo Galeano na sua famosa obra As Veias Abertas da América Latina, citando Bertold Brecth, opina que não.

A pobreza intelectual de Cruzeiro do Sul, carece de heróis.

E os heróis daqui (como quase todos, do mundo todo), se fizeram heróis apenas porque tinham o poder nas mãos. Por méritos ou não, mas, como disse, não importa, desde que seja legal. 

Assim foi com Thaumaturgo de Azevedo, Mâncio Lima e o novo herói.

Qual o mérito, o heroísmo de fazer algo sendo pago e bem pago pelo serviço? Heróis pagos com dinheiro público merecem estátuas pagas com dinheiro público? (segundo informações, a obra de reforma da praça custou 3 milhões, quanto à estatua não foi declarado o valor...).

Heróis pagos e bem pagos em vida... Onde reside o heroísmo? 

Suponha que o alcaide não tenha usado o dinheiro de um direito nosso, que é ter uma caixa de lixo, para fazer a estátua para homenagear o primo dele (usou dinheiro público sim, pois está lá na placa a fonte do convênio).

Suponha que eu mande fazer uma estátua do meu avô, que foi um herói seringueiro explorado por patrões seringalistas, arrumariam um lugarzinho ali pela praça para ele? (talvez ele não se sentisse muito a vontade com a vizinhança).

Suponha que o administrador se importasse em parecer imoral... 
Não se deveria tratar a História dessa forma. O Obelisco de 1904, erguido por ocasião da Fundação da cidade que até 1957 ficava na Praça da Bandeira (com o início da construção da Catedral), foi retirado do local para dar lugar à estátua do ex-governador. 

Onde jogaram o Obelisco? 

Assistiremos passivamente a demolição da História? 

Reforma é diferente de demolição, estúpidos!