Este é um blog de opinião. As postagens escritas ou selecionadas refletem exclusivamente a minha opinião, não sofrendo influência ou pressão de pessoas ou empresas onde trabalho ou venha a trabalhar.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

domingo, 15 de março de 2015

O protesto que é uma vergonha

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Lembrando da malfadada Marcha com Deus pela Familia e pela Liberdade, que ajudou a derrubar João Goulart, cinco décadas atrás, é justo perguntar quando o país começará a dar gargalhadas dos protestos contra a democracia programados para hoje.

Explico. Não existe, em nossa época, iniciativa mais ridícula do que atacar um regime democrático nem tentação mais vergonhosa do que tentar derrubar os poderes soberanos do povo.

É um movimento que contraria as melhores lições políticas que a humanidade aprendeu nos séculos que se seguiram a Revolução Francesa. Que nega uma civilização inteira, na qual nossos filhos e netos merecem viver para que possam construir um mundo melhor para seus próprios filhos e seus netos.

Um mal disfarçado projeto golpista, que reflete a incapacidade de conviver com a vontade expressa da maioria, retira dos atos de hoje qualquer fiapo de pretendida dignidade. Podem ser admitidos por lei mas são errados como cuspir no chão, bater em criança e perseguir quem não pode se defender.

As conspirações anti-democráticas devem ser denunciadas e combatidas sempre mas podem levar semanas, durar meses ou prolongar-se por anos. anos. O ideal é que sejam derrotadas de imediato, mas isso pode levar mais tempo. As vezes, acontece a tragédia de chegarem ao poder, como já ocorreu com tantos povos e países, inclusive conosco, infelizmente, logo depois daquela marcha de 1964.

Mas sempre serão vencidas, inevitavelmente. Os ditadores podem fugir do palácio pela porta dos fundos, podem ser julgados e enforcados, podem ser pendurados de cabeça para baixo pela massa em fúria por direitos que foram roubados, pelo sofrimento causado. Com frequência, reescrevem a própria história, escondem seus crimes, dissimulam, apagam indícios e sinais.

O mais comum é que sejam ridicularizados em sua arrogância, em seu sonho pretensioso, mas no fundo apenas criminal e perigoso. Isso porque não há argumento defensável na boca de quem tenta vencer a vontade soberana de uma nação.

A derrota dos adversários da democracia é inevitável como a alvorada depois da noite. É certa como a esperança que todos os dias nos leva sair da cama para lutar pelo bem ainda que o mal pareça inevitável, a preferir a verdade no lugar da mentira. Eles nunca deixarão de ser uma excrescência absoluta, nem deixarão de refugiar-se na hipocrisia dos que falsificam a história sem escrúpulos nem dores na consciência. Mas estão condenados a perder, porque sua mensagem não eleva o bem estar do povo nem torna os homens e mulheres de hoje mais iguais - mais humanos na realidade - do que homens e mulheres de ontem. Seus projetos são obscuros e regressivos e é por isso, mais do que qualquer outra razão, que eles perdem todos os debates quando as diferenças se esclarecem, não conseguem ganhar nenhuma eleição quando as fantasias se desmancham e o importante aparece. Detestam o voto popular, que só disputam quando não há outro jeito. Mesmo assim tentam comprar a vontade dos fracos, alugar a consciência dos estudados.

Os ataques à democracia fazem feridos, matam e machucam.

Mas sempre chega a hora em que podemos rir deles, em gargalhadas que hoje fazem eco em minha memória, quando lembro da minha mãe falando sobre as vizinhas, amigas e nem tão amigas que foram às ruas para pedir golpe em março de 1964. Professora num bairro de classe média, lutadora por muitos direitos que poucos conheciam na época, dona Alcina tinha orgulho de ter recusado convites e apelos para sair de casa naquele dia. Isso lhe fazia sentir orgulho, dava um sentimento de honra, de dever cumprido. Também era a alegria de quem não se deixara enganar.

Em tempos de maior religiosidade, aquelas mulheres carregavam terços, usavam véus - e vociferavam contra blasfêmias e pecados da época em que a mudança social estava tão distante e a ignorância geral era tão grande que podia ser apresentada como obra do demônio. Para combater o que se chamava de subversão, diziam que iriam eliminar a corrupção. O truque é antigo, como sabemos.

Não vamos nos iludir. Os protestos de hoje querem revogar as melhorias feitas na vida do povo. Expressam o inconformismo de quem não suporta assistir ao progresso dos que sempre estiveram em baixo. Seu horizonte é a escuridão e seu destino final será fornecer enredos e personagens para as anedotas e comédias do futuro.


A gargalhada dos homens e mulheres de amanhã é o destino inevitável dos golpistas que desfilam hoje. Nada mais merecem além de vaias, piadas e deboche.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Verbo se fez carne

Para o Natal, um belo texto publicado no Alma Acreana, blog do escritor tarauacaense Isaac Melo.

* Georges Bernanos (1888-1948)

O Verbo se fez carne, e os jornalistas daqueles tempos não souberam de nada!


A Virgem não teve nem triunfo nem milagres. Seu filho não permitiu que a glória humana a tocasse, ainda que com a mais tênue extremidade de sua grande asa selvagem.

Ninguém viveu, sofreu e morreu tão simplesmente e numa ignorância tão profunda da própria dignidade, de uma dignidade que no entanto a coloca acima dos anjos.

Pois afinal ela havia nascido sem pecado, que espantosa solidão! Uma fonte tão pura, tão límpida, tão pura e tão límpida, que ela nem podia ver nela a própria imagem, feita apenas para a alegria do Pai – ah, solidão sagrada!

A Virgem era a inocência. Você tem consciência daquilo que somos para ela, nós, a raça humana?

Ah, naturalmente, ela detesta o pecado, mas afinal não tem qualquer experiência dele, aquela experiência que não faltou aos maiores santos, até mesmo ao santo de Assis, por mais seráfico que seja.

O olhar da Virgem é o único olhar verdadeiramente infantil, o único olhar de criança que jamais foi erguido sobre nossa vergonha e nossa infelicidade.

* BERNANOS, Georges. Diário de um pároco de aldeia. São Paulo: Paulus, 1999. p. 209-211 Make Money at : http://bit.ly/copy_win 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Acre - Depósito de desterrados.

Com certo atraso, compartilho uma tese do Professor do Departamento de História da UFAC Francisco Bento.

A tese intitulada  "Acre, a pátria dos proscritos: prisões e desterros para as regiões do Acre em 1904 e 1910" (UFPR, 2010), desnuda uma parte da História do Brasil e mais especificamente do Acre nos primeiros anos após o arrebatamento de considerável território das mãos de peruanos e bolivianos.

O Acre era um lugar de degredo, para onde eram enviados os "piores e mais terríveis malfeitores" da República.

Limparam os porões dos presídios da Capital e enviaram ao Acre cerca de duas mil pessoas.

Só por ter roubado um prato de comida em Cruzeiro do Sul, no Acre, Saul Ovídio teve que responder a um inquérito policial em 1905. Já Lycurgo Álvaro de Carvalho foi preso na cidade de Xapuri, em março de 1910, acusado de ter sido coautor de um assassinato. Delphina Rodrigues da Silva, em 1913, foi arrolada em um processo criminal como ré e pivô de uma briga de bar na vila de Santo Antônio do Madeira, de onde o soldado José Rodrigues saiu ferido a golpes de navalha. Francisco Pereira foi preso após ter sido baleado pela polícia por ter “causado confusão” em uma festa alusiva ao Dia do Trabalho, em 1916, na vila de Presidente Marques, próxima à de Santo Antônio. O comandante da polícia, réu no processo, se defendeu acusando Francisco de criminoso contumaz e irrecuperável.

Todas essas pessoas faziam parte de um grupo que foi expurgado do Rio de Janeiro para as chamadas “regiões do Acre” em 1904 e 1910. Se Saul e Lycurgo faziam parte da primeira leva, Delphina e Francisco foram expulsos na segunda. Cerca de dois mil cidadãos foram punidos pelo governo federal da mesma maneira, por conta do seu envolvimento nas Revoltas da Vacina (1904) e dos Marinheiros (1910), e após a vigência dos estados de sítio que foram decretados depois dessas rebeliões. Todos foram desterrados como criminosos políticos, e não como condenados pela Justiça.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Ex- aluno do Ifac é professor de curso do Pronatec ofertado pelo Instituto

Ronei Francisco de Andrade Silva, 31 anos, era vigilante antes de ingressar no curso subsequente (pós conclusão do Ensino Médio) de Técnico em Agropecuária, oferecido pelo Instituto Federal do Acre no Câmpus Cruzeiro do Sul.



Em 2010, a história de vida deste jovem começou a mudar. O irmão decidiu inscrevê-lo no curso e após ser sorteado, Ronei estudava durante o dia e trabalhava à noite. Rotina ainda mais complicada por morar na zona rural. As dificuldades o obrigaram a escolher entre o trabalho e o curso
.
“Lógico que eu escolhi o curso. Sabia que era a minha chance de melhorar de vida. Além disso, as aula me passavam conhecimentos que podia e consegui aplicar na minha colônia. Comecei com uma pequena produção de verduras, depois ampliei a criação de galinha, pato e porco que já tinha. Foi assim que consegui sustentar minha família até terminar o curso”, relatou Ronei.

O formação técnica em agropecuária abriu mais portas para Ronei. Logo após a conclusão conseguiu vaga em uma cooperativa, mas não permaneceu por muito tempo. Em agosto deste ano, o ex-estudante do Ifac se inscreveu para ser professor do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, executado pelo Instituto.

“A vaga era para Porto Walter, a Aline que foi minha professora e é coordenadora do Pronatec na região, me falou das dificuldades que enfrentaria por conta da distância, da necessidade de dormir lá durante o final de semana. Mas eu não pensei duas vezes para assinar o contrato e começar as atividades”, disse o ex-aluno.

Desde então, Ronei sai de Cruzeiro do Sul todas às sextas-feiras pela manhã e viaja quatro horas de barco sobre o rio Juruá até a pequena cidade de Porto Walter para ministrar a disciplina de Produção Animal, do curso de auxiliar técnico em agropecuária, à 30 alunos que se reúnem no quartel da PM do município.

“Vejo o esforço deles e me lembro de quando eu estava fazendo o curso no Ifac. Da luta, das dificuldades porque morava na zona rural... de tudo! Por isso, sinto uma enorme satisfação em poder repassar os conhecimentos que adquiri através da mesma instituição que aprendi tudo o que sei hoje”, declarou.

Os alunos do Ronei enfrentam, praticamente, uma maratona até chegar ao local das aulas. São longas caminhas na estrada de terra que em dias de chuva dificulta ainda mais o acesso dos estudantes. “Quando ele conta que já passou por situações parecidas para poder conseguir concluir o curso e hoje estar aqui nos ensinando me sinto motivado. É mais uma razão para não faltar as aulas”, disse o estudante Francisco Neto.

A ex-professora do Ronei e também coordenadora adjunta do Pronatec no Vale do Juruá, Aline Araújo, falou do orgulho de ver seu ex-aluno se esforçando tanto para atender a comunidade de Porto Walter. “Me sinto honrada de ver meu ex-aluno, do curso técnico em agropecuária, agora como meu colega de trabalho no PRONATEC. O esforço dele e a disposição dos alunos tem trazido ótimos resultados. Um deles é a inexistência de evasão na turma. Quem sabe, em um futuro próximo, ele também passe por emoção parecida com a que vivo hoje. Ver esses alunos da zona rural trabalhando, aplicando os conhecimentos que ele passou”.

Fonte: Pronatec/Cruzeiro do Sul

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Chaves era sofisticado e simples

Moisés Diniz

‘A simplicidade é o último grau de sofisticação’, dizia Leonardo da Vinci. Talvez essa seja a mais luminosa qualidade de Chaves, que esteja criando tanta consternação na sociedade latino-americana e ofuscando quem aprendeu a olhar o mundo a partir da sua própria sombra, achando que, por representar a sua silhueta, seja mais importante do que a luz.
O prestigiado jornal A Folha de São Paulo abriu a sua primeira página para uma estudiosa da alma humana, talvez, a dela e de seus amigos da velha academia, aonde as letras tortas e rústicas do povo não cabem no seu nobre alfabeto. O nome da moça é Sylvia Colombo e o artigo foi intitulado de “Menos Chaves, mais Cantinflas”.
Sylvia Colombo tenta construir um discurso à esquerda do sentimento popular do brasileiro que, segundo ela, é atrasado e subserviente a uma visão estereotipada da pobreza latino-americana, retratada no personagem Chaves, qualificando-o como um produto pobre, folclórico e tosco da poderosa Televisa mexicana. Em respeito ao tempo dos leitores, publico apenas um de seus parágrafos, mas, quem quiser lê-lo todo, basta acessar:http://sylviacolombo.blogfolha.uol.com.br/2014/11/29/menos-chaves-mais-cantinflas/
“A equação da série Chaves é essa: os roteiros eram estúpidos, os textos, fraquíssimos, as piadas, preconceituosas e machistas _basta ver como são retratadas as mulheres no programa. Temos a menina histérica de vestido curto, a mulher mandona cheia de bobs no cabelo, ou uma mais velha, que sem rodeios é chamada de “bruxa”. Sem contar o modelo masculino (seu Madruga), um sujeito folgadão, desbocado e autoritário, a homofobia implícita de seu discurso e suas atitudes.”

Aqui reside o problema de Sylvia Colombo e de grande parte dos ‘doutores’ da alma humana, que, como o Professor Girafales, sentem enorme dificuldade em entender que os pobres, sejam latino-americanos ou africanos, podem se sentir representados por personagens que – embora simples, ‘caricatos’ até, folclóricos, rústicos, analfabetos – podem estar a alimentar esperanças sutis e utopias de todo um povo, mesmo que seus roteiros não tenham sido escritos por celebridades como Honoré de Balzac, Dostoiévski ou Charles Chaplin.
Chaves penetrou na alma latino-americana, como água numa areia pisoteada por quinhentos anos de dominação colonial e capitalista, porque o coração dos pobres nunca foi pedra. Quando precisou endurecer, em suas revoltas populares, foi carbono. Sua mensagem sempre foi simples, mas, era como se existissem conceitos subliminares, como se a filosofia estivesse a alimentar aquela linguagem tonta, infantil e ingênua de Chaves e de seus amigos, como Kiko, Seu Madruga e Chiquinha.
Chaves dormia num barril, à semelhança do filósofo Diógenes de Sínope, representante qualificado do cinismo, que também dormia num barril e andava nu e dizia que “não tinha propriedade alguma para não ser propriedade de nada”. O cinismo, como corrente filosófica, oferecia às pessoas a possibilidade de felicidade e liberdade do sofrimento em uma época de incertezas. Os cínicos não tinham nenhuma propriedade e rejeitavam todos os valores convencionais de dinheiro, fama, poder ou reputação e sua sabedoria maior consistia na ação, não apenas no pensar.
Se pedíssemos a um grupo de estudantes de filosofia para analisar o personagem criado e interpretado por Roberto Bolaños, com certeza, eles lembrariam do que estudaram sobre o cinismo de Antístenes e Diógenes e escreveriam que as máximas do cinismo filosófico aparecem nas frases toscas e tontas de Chaves e de seus amigos e no comportamento de cada cena. E diriam, também, que se assemelham, fortemente, à vida dos pobres nas periferias das grandes cidades latino-americanas.
As cenas repetitivas, que a gente já sabia que ocorreriam nos próximos minutos, sejam na figura de Chaves, de Kiko ou de Seu Madruga, lembram a tragédia de Sísifo, da mitologia grega. O mortal Sísifo que, por ter prendido a morte, recebeu o castigo eterno dos deuses: foi obrigado a rolar uma pedra morro acima, que, quando chegava no topo, despencava novamente. Albert Camus, em seu ‘O Mito de Sísifo’, diz que Sísifo, no lugar do suicídio, respondeu com a revolta aos deuses.
Há algo mais semelhante ao ‘Trabalho de Sísifo’ do que a vida de um pobre latino-americano? No ensaio que escrevi em homenagem a Chico Mendes, há um trecho que retrata com fidelidade o ‘Trabalho de Sísifo’ dos pobres da terra, aqui representado por um filho da floresta amazônica: “acordar com a madrugada, pescar uns peixes miúdos, comê-los com sal e banha na panela, ao alvorecer, agarrar-se aos instrumentos de trabalho, a enxada, a faca de seringa, o terçado, enfezar-se com mutucas, o pium, a ‘ruçara’, cipós-de-fogo, todo tipo de inseto, até inseto que mata”… Segue o texto completo em: http://www.altinomachado.com.br/2008/04/o-chico-mendes-que-eu-vi.html.
As cenas que ocorrem repetidamente na vila de Chaves estão presas a esse conceito, explicado pelos doutores da filosofia e vividos, cotidiana e desgraçadamente, pelos pobres latino-americanos. É como se Nietzsche e Allan Kardec tivessem ajudado Roberto Bolaños a escrever cada cena que se repetiu nesses 30 anos de existência. Como se quisesse dizer: teu filho viverá a mesma indecência da tua miséria humana, teus netos e teus bisnetos, num entrelaçar de vidas passadas e presentes, vivendo agora o que viveste em vidas anteriores.
Por isso, Chaves era sofisticado e simples.

Moisés Diniz é membro da Academia Acreana de Letras e autor do livro O Santo de Deus

domingo, 9 de novembro de 2014

"SERÁ QUE ESTOU ME TORNANDO CONSERVADOR?"

POR MOISÉS DINIZ - Nas últimas semanas tenho lido muita coisa pela imprensa afora, de esquerda, de direita, de extrema-esquerda, ultra reacionária, de todo tipo. Além das asneiras publicadas pela direita, falando, inclusive, de golpe militar, algo também estranho vem sendo publicado pela esquerda: o controle dos meios de comunicação, mesmo que seja a regulação econômica, como define a presidente Dilma.


Desde que entrei no Partido Comunista, há trinta anos, que sempre discordei da forma em que os partidos comunistas e de esquerda, no poder, tratavam a mídia.

A primeira desconfiança se dava na desproporção do poder mal utilizado. Que socialismo ou governo de esquerda eram aqueles que precisavam cercear a imprensa, controlar sindicatos, banir partidos, etc, quando detinham o poder político, o poder econômico, as terras e até as forças armadas? Algo de errado havia naquelas repúblicas socialistas. O déficit não foi outro: caíram quase todas.

Sempre desconfiei de que, quando a esquerda não faz o dever de casa, acaba descambando para o autoritarismo, quando descobre que a direita e a mídia estão dentro do mesmo trem. E aí não sobra outro caminho: defendem o controle da mídia.

Por que os intelectuais da esquerda e a sua militância não se perguntam o que a esquerda, no poder, fez para que a sociedade civil organizada pudesse ter também os seus meios de comunicação de massa?

Por que um governo de esquerda escancarou concessões aos clãs de Sarney, Collor, Barbalho et caterva e não abriu milhares de rádios e tvs comunitárias, estudantis, sindicais, indígenas, rurais, de grupos de cultura, de religiões populares, além dos poderosos canais de tvs dos bispos?

Acho que eu não estou me tornando conservador, apenas mantendo a minha posição de que imprensa a gente não controla, a gente impõe a disputa, abre concorrência. E deixa o povo assistir e julgar.

De minha parte, independente da opinião dos partidos de esquerda ou de direita, vou continuar me posicionando contra qualquer controle dos meios de comunicação, porque a mesma direita que, agora, combate o controle da mídia, é a mesma que, quando no poder, age pelo cerceamento da imprensa.

São duas escolas velhas que precisam se entender com o presente, para não virarem fumaça no futuro. São duas irmãs gêmeas: se harmonizam no cerceamento à imprensa e divergem noutras questões. Por exemplo, a esquerda, no poder, controla e amordaça os movimentos sociais e a direita os prende e, as vezes, os mata.

Vamos continuar apostando que a melhor forma de tratar o monopólio da mídia é garantindo equipamento de comunicação social nas mãos da sociedade civil organizada do outro lado da tela.

*Moisés Diniz é membro da Academia Acreana de Letras, autor do livro O Santo de Deus