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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

“As pessoas não morrem, ficam encantadas”

Atendendo a solicitações de alguns amigos, principalmente de primos e tios, reproduzo aqui neste primeiro de janeiro de 2009, um texto publicado no Jornal Voz do Norte sobre Maria de Lourdes Almeida, minha avó materna que sepultamos no primeiro dia de 2008. Um ano depois tentei refazê-lo e acabei desistindo. Melhor, pois representará sempre um pouco do que sentimos naquele dia. Acrescento apenas a frase do grande escritor: “As pessoas não morrem...”


“Só Jesus Cristo Salva”

No dia 12 de novembro último (2007), Dona Lourdes Almeida, minha avó materna telefonou ou mandou telefonar para todos os netos. Queria ver a todos, netos, bisnetos, esposas de netos, o “meu povo” como falava, antes de viajar a Rio Branco para tratar-se de uma dor na perna direita que há dias não a deixava dormir.
A gente conhece as pessoas, vai avançando no tempo e aos poucos vai aprendendo a conhecer as pessoas, a perceber os seus sinais. A vó nunca me chamara, nunca reclamara de saudades, não era de se queixar, mesmo porque eu a estivera visitando no dia anterior. Era um sinal. Entendi o recado e rapidamente levei meus filhos até lá. Recebeu-nos com a alegria de sempre, educada, elogiando a roupa, o cabelo, a dieta, pedindo licença para cumprimentar uma nova visita. Suas palavras, ditas no ouvido de cada um no momento do abraço eram de despedida. Embora eu tenha dito “Vó, a senhora vai voltar”, não tinha muita certeza sobre o sentido de cada palavra, lembro apenas que ela concordou e me abraçou e foi o abraço mais forte e demorado que recebi.
Seu caso era gravíssimo, ela não sabia ainda, mas, pela proximidade com o médico que a atendera nos últimos meses, deduzimos tratar-se de uma despedida, e naquele caso específico não haveria lugar para milagres. Pedir um milagre seria desespero.
No dia 13 estava em Rio Branco e em poucos dias, 11 dos 12 filhos vivos, além do meu avô, estavam com ela. Revivendo emoções adormecidas por mais de 40 anos, quando a família havia se reunido pela última vez.
Superou novembro. Entrou dezembro, e dia sobre dia, se fez fim que também é o fim do ano. Tivemos um Natal melancólico. Na tarde do dia 24, ouvi de minha mãe por telefone, “Esperamos a vontade de Deus”.
Não sou homem muito religioso. Cada momento na igreja, avalio palavra por palavra as intenções do pregador. Em minhas orações, que já foram mais freqüentes e bem mais longas, sempre pedi muita coisa e sempre fui ouvido. Sempre, também pedi fé, mas acima de tudo, coragem, saúde e lucidez para decidir não largar minha família para seguir quem quer seja. Todas as noites peço fé, queria ter fé, não apenas porque considere importante ter fé, não apenas por conveniência, mas, simplesmente para poder falar diretamente com Deus e pedir um milagre. Não pedi e deveria ter pedido. Eu acredito em milagres.
Na rápida agonia da doença, os que estiveram mais próximos dela nos momentos finais lembram sorrindo seu exemplo diário de coragem, de dignidade e de fé. Verdadeiras lições, algumas cifradas em sorriso, comentários, palavras soltas.
No dia 31 a noticia. Maria de Lourdes Almeida, de 84 anos de idade (nasceu em 19 de agosto de 1923, próximo ao Seringal Triunfo) se libertara das sondas, agulhas, tubos e, quem sabe ao certo?
Naquela noite, nossos abraços foram de conforto e havia sempre um abraço reconfortante. Mesmo assim, vimos a queima de fogos, jantamos, brindamos, sorrimos e alguns de nós dormimos. Estávamos longe, e não tínhamos portanto a dimensão das lágrimas.
Pala manhã, dia nublado, com previsão para chuva, a burocracia da funerária, o lugar do sepultamento, o horário, os avisos nas Rádios. Era 1° de janeiro e a cidade parada. Nenhuma Rádio funcionando. Pensei nos amigos de minha vó, nos seus amigos de Porto Walter que não ficariam sabendo até que seu corpo já tivesse sido sepultado, pensei nos seus amigos da igreja, sem uma forma de visar-lhes e senti pena.
Procurei ver o lado bom de um dia 1° de janeiro. Com a cidade parada, sem trânsito, com todos dormindo, poderíamos circular livremente, chorar livremente, sem causar transtornos.
Estivemos no saguão do aeroporto em silêncio. Parecia um lugar diferente, bem maior, deserto. Um aeroporto será sempre um lugar de reencontre, alguns, como o nosso naquele dia era igual ao de milhares de pessoas mundo afora.
Do aeroporto viemos em comboio até o templo da Assembléia de Deus no Bairro João Alves e uma frase, no púlpito me chamou a atenção: “Só Jesus Cristo Salva”, e ali, com o sol aos poucos também adentrando a igreja, iluminando cada um de nos lhes rendemos as ultimas homenagens.
Ainda que irrelevantes naquele momento, lhe rendemos momento, lhe rendemos algumas homenagens. Li sua biografia, Adson recitou um poema, Atilon cantou dois hinos que ela gostava de cantar e ouvir, mais Adonis, Alan, Tereza e Perpétua, que fez um comovente relato sobre os últimos dias, da dureza daquela viagem, daqueles conselhos direcionados ao problema de cada um, que ela tão bem conhecia. Uma frase sua já nos dias finais: “Digam a todos que religião nenhuma salva: Só Jesus Cristo Salva”, a frase no púlpito, eu a li varias vezes naquele momento. Era talvez, seu último grande ensinamento. Presentes no templo, pessoa de vários credos.
A vó tinha muito orgulho da família, principalmente das filhas, conforme ela mesma fazia questão de dizer. Perpétua era um grande orgulho, sofria muito nos pleitos eleitorais com o desespero de algum adversário mais despreparado. Pedia vida longa para todos eles. Apesar de orgulhar-se muito de alguns filhos, filhas e netos, como era o meu caso (estivera na primeira fila no lançamento de Quatro Colinas em 2006), sempre tratou cada um de nós indistintamente, elogiando quando a obra era boa, ou dando um “carão”, conforme o caso, na primeira oportunidade, tivesse o elemento 3 anos, como o Leonardo, meu filho, ou 61 como o Zé Batista, meu tio.
Não choveu no cemitério.
Sempre me orgulhei da família em que nasci. E a parti daquele 1° de janeiro de 2008, muito mais, pela forma que nos tratamos num momento difícil. Tínhamos na vó, um exemplo de superação. Fraturas constantes, deficiência de cálcio, osteoporose diagnosticada há mais de quinze anos, restrição alimentar e gastrite. Paralelo a isso, uma obediência quase religiosa às recomendações médicas. A vó não quebrava dietas.
Lembrarei sempre daquele sorriso, daquela gargalhada, daquela forma só dela, de criticar o vô, que só nós, filhos, netos, bisnetos, noras, genros e esposas e esposos de netos e netas, a FAMÍLIA ALMEIDA, vamos guardar para sempre, e enquanto existirmos.
E sempre que alguém chamar seu nome, teremos orgulho em responder por ela. Maria de Lourdes Almeida: Presente!

Antonio Franciney de Almeida Rocha - Neto
Em tempo: O texto foi recuperado por Alcineiva, minha prima, que o mandou digitar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa estou encantada... Parabéns!!!