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segunda-feira, 26 de abril de 2010

UM BOM PASTOR

Bento XVI segundo um rabino. A força da razão na relação com as outras religiões.
 
"O que o mundo aprendeu nestes cinco anos com relação ao Papa-estudioso é o preço que a academia paga para defender a verdade e manter a sua própria integridade. A infalibilidade tem os seus custos. As pessoas preferem políticos capazes de mediar, em vez de personagens críticos e inclinados às controvérsias. Isso é o que nos ensinam os Papas-estudiosos em geral."

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A opinião é do rabino norte-americano e estudioso do judaísmo Jacob Neusner, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 18-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu disse a melhor frase da minha vida uma vez, na academia, a alguém que contestava minhas opiniões sobre o time de beisebol do New York Yankees com relação ao New York Mets: "Não tente prevalecer sobre mim. Sou um professor, portanto sempre tenho razão". Infelizmente, ao invés de levá-la na brincadeira, o fulano me jogou uma toalha.

Quando se confere a um estudioso e intelectual de sucesso o status de infalibilidade, aí começam os problemas. Um estudioso não tem necessidade de que lhe digam que ele é infalível. Ele já sabe disso, e é pago para ser isso. A profissão de pesquisador requer integridade, racionalidade e honestidade intelectual.

Nos seus primeiros cinco anos de papado, Ratzinger revelou todos esses traços, ao mesmo tempo que uma abundante humildade, generosidade e amor. Porém, o mundo precisa de tempo para se habituar com esse Papa-estudioso que enfrenta de modo direto e sem hesitação os temas fundamentais e deixa cair as ninharias, quando possível.

Os muçulmanos compreenderam do que é feito esse Papa em Regensburg, quando, com uma intervenção muito profunda, Bento XVI colocou em dúvida a contribuição do Islã à civilização.

Os anglicanos compreenderam do que é feito esse Papa quando ele, em um impulso de honestidade, convidou o clero anglicano a fazer parte da Igreja.

Os judeus compreenderam do que é feito esse Papa quando Bento XVI retornou a uma liturgia que questionava o credo judaico.

Em todos os três casos, a ruptura foi recomposta e prevaleceram as posições mais moderadas: com o Islã, foi feita a paz, e com os anglicanos e os judeus chegou-se a uma reconciliação. Mas o Papa-estudioso não fez nada mais do que expressar a verdade assim como ela é sentida no coração do catolicismo: o Islã não pode competir com o cristianismo quanto à importância moral, os anglicanos sempre serão bem-vindos, e os judeus estariam muito melhor no interior da Igreja.

O Papa Bento XVI fala como um estudioso e pronuncia verdades cristãs assim como as enunciava o infalível bispo de Roma. Um estudioso não poderia deixar de agir desse modo.

A questão que neste momento perturba a paz é o modo em que, no passado, o cardeal Ratzinger liquidou um caso de um padre culpado de ter abusado sexualmente de algumas crianças. A caridade cristã sugeria perdoar aquele padre, uma alma penitente despedaçada e no fim da vida.

O cardeal Ratzinger economizou-lhe as humilhações que uma justa punição comportaria. O padre morreu no seio da Igreja, e Bento XVI mostrou o verdadeiro significado do arrependimento e amor cristão.

Em janeiro passado, quando encontrei o Papa em Roma, perguntei-lhe o que pretendia fazer quando, entre aproximadamente seis meses, completará o segundo volume do seu Jesus de Nazaré. Com um sorriso, ele me respondeu: "Nada mais. Esse é o meu último livro. Tenho outras coisas para resolver".

Um estudioso que deixa de escrever livros não mantém esse título por um longo tempo. Bento XVI não precisou acrescentar: "Até porque eu sou o Papa". Mas o acadêmico dentro de mim sussurrou: "E com que preço...".

O que o mundo aprendeu nestes cinco anos com relação ao Papa-estudioso é o preço que a academia paga para defender a verdade e manter a sua própria integridade. A infalibilidade tem os seus custos. As pessoas preferem políticos capazes de mediar, em vez de personagens críticos e inclinados às controvérsias. Isso é o que nos ensinam os Papas-estudiosos em geral.

Mas o que eu aprendo com esse Papa-estudioso em particular é algo a mais. A genuína integridade desse homem e a sua capacidade de expôr a verdade à humanidade inteira movem interesses muito fortes.

E por isso, os muçulmanos, os anglicanos e os judeus também devem se preparar para um debate de alto nível sobre a razão e a racionalidade compartilhada e encontrar um ponto de encontro nos conflitos que buscam estabelecer quem está do lado certo e quem está do lado errado e o que nos prescrevem as Sagradas Escrituras e a tradição.
Postado em: http://almaacreana.blogspot.com/

Um comentário:

Isaac Melo disse...

Franciney,
sinta-se sempre à vontade em relação ao Alma, você tem sempre carta branca. rsrs...

Sobre Bento XVI, admiro bastante!

Um forte abraço!