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sábado, 20 de março de 2010

E se fosse um anjo?

Ontem, pela tarde, alunos e professores da 8ª B da Escola Padre Marcelino Champagnat estiveram de luto.
Um aluno falecera e clima pior não haveria.

Impossível falar em liberalismo econômico, socialismo, materialismo histórico e a luta de classes diante da terrível notícia da morte de um colega. Diante de um mistério para o qual eu não tinha resposta alguma.

Aquela sala jamais estivera tão silenciosa. Mesmo aqueles que pela natureza são irrequietos, estavam calados e atenciosos.

Poderia ter afirmado que "a morte é um fenômeno natural", mas duvido que algum deles acreditasse. A naturalidade da morte só se aplica se estivermos de fora. A morte só é natural quando não está por perto, quando não nos atinge.

A História de nada vale diante de um mistério.
 
Tinha 18 anos e estivera conosco apenas há duas semanas.

Discreto, pouco afeito à conversas, era natural de Porto Walter e vivia desde muito, o drama de uma doença crônica. O tratamento não lhe permitia uma sequência escolar satisfatória.

Olhei para a carteira que sentou nos poucos dias que esteve na sala e me veio à mente uma pergunta: E se fosse um anjo que Deus colocou em nossas vidas para nos ensinar algumas lições?

Nem tivemos oportunidade de conhecê-lo, não tivemos a preocupação de conhecê-lo, de ouvir suas idéias de mundo, seus temores (será que os tinha?)

Quis saber dos sobreviventes, quantos tinham conversado com ele. Poucos, mesmo os mais próximos o tinham ignorado, não por maldade, mas simplemente porque como era novato na escola (tinha chegado há duas semanas) não tinha tomado ainda parte em nenhum grupo.

Aquelas palavras também serviriam para todos nós professores. Entramos, saímos, corremos, nos preocupamos excessivamente com a disciplina e o conteúdo, e nos esquecemos de olhar nos olhos...

Para a nossa memória José Francisco da Silva Neto será apenas o aluno da 8ª B que morreu antes de o termos conhecido.

Da mesma forma que recordamos de alguns outros apenas como: aquele da janela, aquele bagunceiro, aquele que nunca faz a tarefa, aquele sem nome...

É a vida. Quanto mais avançamos, mais perdemos. Ou, o que nos parece mais certo: Quanto mais perdemos, mais ganhamos em experiência e nos preparamos para entender a vida, e aceitar a morte.

Um comentário:

neivabiblioteca disse...

...é meu caro primo, mas uma vez você vem me comover com tão despretensiosas palavras.É que me questiono diariamente sobre fatos como esse, e que nada tem de corriqueiro.É que esse tão nobre e jovem ser, que poderia ser um anjo,era, na verdade , um primo que não cheguei a conhecer pessoalmente.Conhecia sua história, suas lutas, mas...não o conhecia, e isso me deixa pensativa e triste ao mesmo tempo.parabéns, por mais uma vez, ser solidário com aqueles que na maioria das vezes tem sua esquecida, seja por esse ou por aquele motivo.Pude ontem, após sete dias do acontecido, foi só quando fiquei sabendo, ver as lágrimas sentidas daquela que é sua avó e que também o criou, nossa tia, mas conhecida como Maria do Zé Chico.Na ocasião ela me falava, que seu professor tinha-lhe feito uma homenagem no computador, foi como ela se referiu, e ao perguntar sobre quem esse professor, tive a grata surpresa de saber que:" é o Fran, filho da Maria do Chico Cário" que por coincidência também conheço.E, depois claro, fiquei pensando na ironia da vida diante de tantas e tantas perguntas. E a vida segue seu curso.Alcineiva Almeida