Este é um blog de opinião. As postagens escritas ou selecionadas refletem exclusivamente a minha opinião, não sofrendo influência ou pressão de pessoas ou empresas onde trabalho ou venha a trabalhar.

sábado, 6 de março de 2010

Do meu próprio roçado...

A partir de hoje, aos domingos, estarei postando alguns "contos e causos" que já publiquei. É para atender a solicitação de um amigo que gostaria de ver mais literatura no blog. Então tá, vamos ver...

Apesar de já ter postado alguns poemas, inicio com um causo que gosto muito e que por ser um pouco extenso será publicado aos poucos.

Chama-se "Cão de Sete Orelhas" e foi publicado em Quatro Colinas em 2006.

Cão de Sete Orelhas não é de todo uma invenção. Conta a façanha de um indivíduo fictício(nem tanto) nascido a partir da mistura de três conhecidos meus lá de Porto Walter. Vale a pena.


Cão de Sete Orelhas

            Por aquele tempo, ainda éramos crianças. Alguns de nós, porque outros estavam ainda, na interpretação errônea das páginas da cartilha que os missionários estrangeiros distribuíam aos casais miseráveis, quase mendicantes, que por não terem coisa melhor para fazer, faziam amor e filhos, aos montes, presente da natureza, que aumenta a fertilidade nos mais indefesos para alargar as chances de uma cria vingar.
            Por aquele tempo também, o rio subia e baixava. Os barcos também subiam e baixavam. Apenas os balseiros, as pastas, as cabaças, as canoas fugindo e outros troços buiadores é que só baixavam, de bubuia.
            Ainda por aquele tempo, que o motor de luz não havia chegado, e ainda levaria alguns anos para chegar, que televisão talvez nem houvesse no Cruzeiro, que a política era ainda mais porca, o mundo pareceu que ia se acabar.
            Não era momento bom. Se imaginava o mundo acabando numa tarde, à boca da noite. E era pouco mais de sete horas da manhã de ensolarado sábado. Se acreditava, de fé e crença em Frei Damião e Irmão José, que a hecatombe fosse no ano dos três noves, mas os anos que faltavam, era ainda conta impossível às crianças. Eram cálculos de adultos. Aos inocentes, o momento era aquele. O trovão, anunciado por um rasgo no céu, passa logo; a samaúma tombada, também passa; mas o barulho do fim do mundo era diferente. Grosso, comprido, pipocado, aumentado a cada pipoco, apenas para acompanhar o coração, deveria vir fazendo um escangalho. Matando todos, ricos por serem ricos, pobres por serem vivos. A diferença era a eternidade: pobres para o céu - por serem os últimos; ricos para o inferno - pela história do camelo e por terem vez.
            E foi por aquele tempo, com barulho de fim do mundo e vento de temporal, que o helicóptero da vacina chegou. Preto, grosso na frente, alongado na ponta, tirando fino nos paus e arrancando palha das casas, ao ser identificado como tal, trouxe alívio aos leigos em matéria de aviação. Não sem antes, como em toda história desse tipo, obrigar criminosos e pecadores a confessarem seus crimes e adultérios. Depois, se imagina o que acontece.

...Continua no próximo domingo.

Um comentário:

Tatá disse...

Ê rapaz, "a Véa" deu gaitada pá tudo qui é lado ao ler seu comentário... Ela mandou-me que agradicesse rosmicê. Parabéns a elas... Que qui num era di nóis