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sábado, 29 de dezembro de 2012

"Alma Santa" do Barro Alto

Quem poderá dizer que a fé humana é ilusão apenas?Sobre a minha fé eu até arrisco alguns palpites, mas sobre a fé dos outros...

Pois dentro do Rio Grajaú em Porto Walter está a prova de que qualquer preconceito sobre o tema será arriscado.

Afirmo baseado no fenômeno denominado “Alma Santa do Barro Alto”. E, pesar de não ter me debruçado sobre o tema com a seriedade que ele merece, de tanto ouvir depoimentos de pessoas mais antigas concluo que, aqui pela nossa região, as almas santas são mais comuns do que se imagina. 

Se em quase todos os cemitérios existem uma, em quase todos os rios e igarapés amazônicos também, mas nenhuma "alma santa" desperta tanto interesse e mistério quanto a do Barro Alto no Rio Grajaú no município de Porto Walter.

Apesar de bastante comentada no Alto Juruá, e até conhecida em outras partes do Brasil conforme me informaram (na comunidade Esperança a poucos quilômetros abaixo do local), já visitaram o local pessoas de várias partes do Brasil, um deles teria inclusive chegado de helicóptero. Alguns políticos de sucesso por aqui costumam pagar promessas por suas vitórias por lá. Apesar desse sucesso de crença e visitação, o Barro Alto ainda não foi catalogado como um lugar de romaria (pelo menos não encontrei). Nem a imprensa cruzeirense conhece o Barro Alto.   

Em abril de 2010 fui convidado por uma equipe de TV para na condição de historiador (talvez a única vantagens de ter escolhido História) ajudar na produção de uma reportagem sobre a religiosidade na região. E como eu estivesse também produzindo para o meu livro aceitei o trabalho. Fomos ao Barro Alto no Rio Grajaú visitar a sepultura da "alma santa do Barro Alto".

Desde muito era meu desejo estar no local e escrever algo a respeito daquele fenômeno de fé.

Chegar ali durante a cheia do rio é mais fácil, mesmo assim ainda é um grande feito e só um prático experiente sabe desvendar os meandros do Rio Grajaú, pois as águas do Rio Juruá o represam muitas voltas acima da foz e se por um lado facilita pela velocidade, por outro dificulta pela falta de um canal. Represado, o Grajaú praticamente para de correr e engana os navegantes menos atentos.

Mas desde quando a sepultura alguém (de quem nada ou quase nada se sabe a respeito) cavada num barranco dentro do Rio Grajaú teria alcançado o status de "alma santa"? Perguntei a um dos moradores mais idosos da Comunidade Esperança (a poucos quilômetros do local) e a resposta foi: Vixe, faz mais de cem anos...!

Mas o Grajaú não me parece ter mudado muito, e poderia assegurar que algumas daquelas árvores de suas margens são as mesmas de muitos séculos atrás e que algumas até presenciaram o sinistro.

Queria ouvir a opinião dos moradores próximos, ouvir pelo menos três pessoas de diferentes opiniões para contrapor as várias versões a respeito da origem da “alma santa”.  No Grajaú, as versões são convergentes: 

Numa época que foge à memória e a comprovações de veracidade, dois seringueiros desciam o Grajaú durante uma grande enchente quando foram atacados por índios tendo um deles sido atingido gravemente por flechada. Agonizando, pede ao companheiro que caso não sobreviva o sepulte em local seco. A viagem termina então, no único ponto seco do rio naquele momento - o Barro Alto.

A outra, bem parecida, difere apenas quanto à natureza do ataque mortal, aqui atribuído a picada de cobra. Nas duas, um companheiro penitente que o sepulta no único ponto do rio onde as águas não tinham chegado e desde então, também não chegariam mais.

E encontrei quem me dissesse que aquele lugar (Barro Alto) não é o lugar do sepultamento de um seringueiro, mas de vários outros, simplesmente  por ser um dos lugares mais altos dentro do rio Grajaú e onde "dificilmente" o rio chega, mas já chegou.

Certamente a morte de um seringueiro e seu sepultamento na margem do rio causa grande comoção entre os moradores e viajantes, e é bem provável que a crença na “alma santa” tenha surgido em data bem posterior a fatalidade, talvez fruto de algum sonho onde uma "mensagem recebida" alimentou a crença no poder milagroso daquela alma sepulta no “Barro Alto”.

E o primeiro "milagre" ocorreu, e a primeira promessa foi paga, e a partir daí, muitas outras se sucederam.

Desde então os pedidos feitos à "alma santa", e atendidos, se converteram em milagres que devem ser pagos com uma visita ao local e uma forma de marcar o milagre é depositando no local algo que evoque a graça recebida (cabelos, roupas, sapatos e uma curiosa estatuária representada por bustos, seios, cabeças, pernas, pés, mãos, braços e outras peças). Há também muito lixo causado por caixas de velas e fogos (rojões).

A calcular pela quantidade de milagres e pessoas que visitam o local, ali é um local misterioso (o silêncio do rio e uma galega ‘juriti fogo-apagou’ cantando próximo contribui para isso).

Os vários relatos que ouvi mantém uma relação de coincidências, uma coerência quanto ao sepultamento ali no meio do nada, na margem direita do rio Grajaú.

Foi uma aventura e tanto, única e valiosa. Parar no porto, subir o barranco (que pela enchente era menos que um metro de altura) e ouvir as pessoas, suas crenças, suas ilusões.

Como quem visita um sítio arqueológico, não trouxemos uma única pedra, apenas fotos e memórias. 
Na ocasião lembro que por não ter muito o que negociar (pedir a graça para paga-la depois com uma visita depositando ali uma lembrança) em tom de brincadeira pedi que o Flamengo ganhasse outra vez algum título de valor (um Campeonato Brasileiro, uma Copa do Brasil, uma Libertadores...) e na visita, a camisa do autor do gol do título ficaria dependurada por ali. Tomara que não demore muito...   

Algumas imagens: 
  Observe o detalhe do pé entalhado em madeira (no alto a direita) com uma sacola de roupa.
 O túmulo da "alma santa" a partir do rio Grajaú
Dependendo da graça alcançada o pagamento pode ser a construção de uma nova "casa dos milagres". 
Exemplo da estatuária presente no Barro Alto
  Roupas, estátuas e lixo... 
Não parece o braço de um manequim?
 ...e até um aluno da Escola Dom Henrique Ruth (será que agradecendo o milagre de ter sido aprovado?)

 As duas imagens acima são do mesmo local no verão (em data anterior a 2010) 

Um comentário:

Luíz Almeida disse...

MEU "VELHO" ESTEVE NESTE LUGAR, MAIS NÃO LEMBRO QUE TIPO DE PROMESSA ERA, E TAMBÉM NÃO CREIO QUE TENHA RECEBIDO A GRAÇA. AFINAL, NÃO ESTÁ MAIS AQUI.

ME PARECE MUITO ABANDONADO, SENDO TÃO MILAGREIRO.